Goiás

Tombamento do Iphan vira esperança de preservação no maior quilombo do mundo, em Goiás

Invasões de fazendeiros no século passado e tomada de parte da produção de alimentos, ainda assombram comunidades tradicionais da região. Mas reconhecimento do território como patrimônio gera esperança de avanços e proteção

Por: Renato Souza

Um pedaço importante da história do Brasil e do mundo luta para manter sua preservação no interior de Goiás. É uma área de 260 mil hectares, em meio ao Cerrado brasileiro, está localizado o território Kalunga, o maior quilombo do mundo, superando até mesmo territórios ocupados por outros descendentes de escravizados na África. No mês de março, um passo importante foi dado na região. O Instituto Nacional do Patrimônio Histórico (Iphan) decidiu tombar a região como patrimônio histórico nacional.

Composto por um total de 39 comunidades, o quilombo fica localizado entre as cidades de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre, ocupando 60% da região da Chapada dos Veadeiros, e reúne cerca de 8 mil quilombolas. A principal comunidade é a do Engenho II, composta por cerca de 800 habitantes. No local, a vida ainda é pacata, com famílias vivendo da agricultura familiar, crianças correndo pelas ruas e brincando nas árvores, jogando bola e pulando nos rios. O transporte coletivo é feito por meio do “pau de arara”, caminhonetes adaptadas com carrocerias que ampliam a quantidade de passageiros que podem ser carregados em cada viagem.

A violência é praticamente inexistente, com moradores dormindo com as portas de suas casas abertas, destrancadas, sem qualquer receio de ser vítima de roubo, furto ou de outras situações de violência urbana que assolam o resto do país, até mesmo em municípios pequenos, mas que não estão livres de ações de criminosos. No quilombo, a internet ainda é restrita aos centros de atendimento ao turista e ao comércio. Antenas da Starlink levam o sinal para pequenas áreas, inclusive escolas, que fazem parte da rotina da comunidade desde que a luz elétrica chegou, em 2004 – por meio do programa Luz Para Todos – lançado pelo governo federal no primeiro mandato do presidente Lula.

Em razão da escassez de sinal de internet, a vida no quilombo se assemelha muito ao começo dos anos 2000, com as pessoas conversando na rua, interação entre a comunidade, uma explosão de manifestações culturais, com destaque para festas católicas que contam com um calendário próprio ao longo do ano. O sinal de rádio FM conta com a presença de apenas uma emissora, sediada em Posse-GO, cuja programação não mantém qualquer ligação com a cultura e expressividade cultural do povo quilombola. O sinal de TV também não é presente nas residências.

Apesar da distância do mundo tecnológico atual, as comunidades do maior quilombo do mundo não estão alheias às fake news. Integrantes de comunidades quilombolas são enquadrados como segurados especiais pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e podem se aposentar com 55 anos, no caso das mulheres, e 60 anos, no caso dos homens, com 15 anos de atividade na área rural, sem a obrigatoriedade de contribuição. Há duas décadas, a informação sobre o direito ao benefício chegou no local e alguns quilombolas começaram a procurar o governo para requisitar o benefício.

Porém, de acordo com os líderes da região, logo surgiu um boato de que na verdade o Estado estaria utilizando o benefício como um argumento para descobrir o endereço e a localização das famílias, a fim de escravizar novamente os negros após a derrubada da Lei Áurea. O boato afastou centenas de pessoas que poderiam solicitar aposentadoria – sendo que algumas morreram sem nunca ter tentado obter o benefício.

O quilombola Jorge Moreira de Oliveira, fala sobre a chegada de fazendeiros, que muitas vezes tomavam parte da produção da população dos Kalungas. “Quando abriram as primeiras estradas, começou a aparecer gente aqui. Mas quando essas pessoas chegaram, elas não falavam dos nossos direitos, falavam apenas dos nossos deveres. Falavam que as terras eram deles e que quem quisesse ficar, teria de pagar uma renda para eles, de 20%. Muitas famílias, de 77 a 96, pagaram renda. Eu casei em 93 e passei dez anos colhendo renda de tudo que eu produzia. E isso que eu produzia era para me alimentar, alimentar minha mulher e meus filhos. Roças foram destruídas, casas foram queimadas e muita gente foi despejada. Somente dos anos 2000 para cá que as coisas começaram a melhorar”, disse.

Orgulho quilombola

Em meio a lutas travadas ao longo dos séculos e das últimas décadas, o povo quilombola fala com orgulho sobre sua origem e suas tradições. Da plantação que não degrada o meio ambiente, feita com técnicas especiais, passando pela preservação do território e pela manutenção das manifestações culturais, a identidade do povo se mantém sólida. As 39 comunidades mantêm um calendário bem definido de festividades, que ocorrem durante vários meses, com destaque especial para festas católicas, que dominam a agenda dos quilombolas.

Cirilo dos Santos Rosa, de 71 anos, uma respeitada liderança comunitária no Quilombo Kalunga, especificamente no Sítio Histórico do Engenho II, fala sobre a necessidade de preservação da identidade do povo. “Ser quilombola é o grande tesouro que nós temos. Mas para isso, precisamos preservar nossa identidade cultural, que está no nosso sangue. Sem cultura não somos nada. Para mim é uma honra ser quilombola”, destacou.

“Nossa função é preservar o território, preservar a cultura e o território. O meio ambiente precisa ser preservado para que possamos ter segurança, sejamos felizes. Nós vivemos do território, mas preservando ele. O garimpo é uma das coisas que degrada tudo. Nós trabalhamos com fogo, mas com as maneiras controladas,” completa.

Tombamento

O tombamento do território Kalunga como patrimônio histórico e artístico nacional foi solicitado ao Iphan em 1988, logo após a promulgação da Constituição Federal, que passou a prever o direito à terra aos povos quilombolas. No entanto, só foi oficializado de fato neste ano. O processo ainda está na etapa inicial, com o reconhecimento da região como área de proteção e sítio histórico, e a próxima fase é a criação de um catálogo de regiões, monumentos e sítios que serão tombados.

Um acordo selado entre Iphan e Sebrae, que terá vigência até 29 de maio de 2028, tem como objetivo central é a execução do projeto “Inventário dos Bens Culturais e das Potencialidades Econômicas das Comunidades Quilombolas Kalunga”, onde os endereços tombados serão definidos. “Dominga Natália, de 36 anos, cresceu em uma família de 14 irmãos, no território Kalunga, na comunidade de Engenho II.

Atualmente, é presidente da Associação Comunitária de Engenho II e Secretária de Turismo de Cavalcante. Natália cresceu vendo as dificuldades da família e os momentos de tristeza e aperto quando as plantações eram destruídas por fazendeiros. No entanto, afirma que a realidade atual é melhor, por conta da força econômica gerada pelo turismo e avanço das técnicas de agricultura. Ela vê de maneira positiva o tombamento do território.

“Ser Kalunga, quilombola para mim, é ser resistente. Achar forças nas nossas raízes. Entender um pouco da história, que nunca foi fácil. Buscar nosso objetivo que é concretizar nossa liberdade, dos nossos meios de viver no território. O tombamento representa mais uma força de luta e concretização de que este espaço é das pessoas que moram neste território. É uma forma de assegurar ao povo os bens materiais do território e tudo que nele existe”, afirma.

Turismo em Cavalcante

A cidade de Alto Paraíso, que fica a cerca de 100 quilômetros de Cavalcante, já é conhecida em todo o Brasil por sua atratividade turística, com cachoeiras, trilhas e sua forte cultura esotérica, que se baseia na crença de energias, no universo e na alma para explicar o equilíbrio humano, a sensação de bem estar, a felicidade e a saúde. Lojas que vendem pedras e artigos místicos, além da crença na existência de civilizações extraterrestres atraem multidões ao município todos os anos.

Em Cavalcante, o turismo tem ganhado força nos últimos anos. Na entrada da cidade, já é possível acessar a Casa de Memória da Mulher Kalunga, idealizada pela quilombola Marta Kalunga, palco da primeira biblioteca Kalunga e do único cineclube itinerante da cidade. Nos últimos 20 anos, com a chegada da energia elétrica, turistas de todo o país descobriram as riquezas do território Kalunga, que além de preservar sua história e as tradições, levam os visitantes para roteiros fora do tradicional, que remontam ao passado e o saudosismo de uma vida sem a dependência da tecnologia. O turismo aqueceu a economia dos Kalungas e fez com que surgissem novas oportunidades de emprego e de renda, além das tradicionais plantações que movimentam a agricultura familiar.

Julia, de 24 anos, é guia turística há quatro anos. Nesta atividade, os quilombolas mais jovens encontraram uma oportunidade de garantir a renda. Os cursos de guia são oferecidos e incentivados pelo Sebrae. “Sou nascida e criada aqui na comunidade. Na Comunidade Engenho II, temos três atrativos. A Santa Bárbara, Capivara e Candaru, que são três cachoeiras. Temos também restaurantes na comunidade onde os turistas vão, conhecer nossa culinária, conversar com as pessoas mais velhas. Nas pousadas ainda não temos restaurante, então os visitantes comem nos mesmos locais que nós que vivemos aqui”, disse.

Arlethe Santos, diretora de turismo de Cavalcante, destaca que além das belezas naturais, a região, tanto da cidade, quanto do quilombo, apresentam fortes tradições culturais. “A dança está dentro do festejo. Tem a curraleira, o bendito de mesa, a própria reza em si. Tem o barro, as rezas eram feitas em latim. Ainda temos rezas em latim aqui, são rezas católicas”, destaca.

Superação

Quem vê o sorriso cativante da quilombola Januária Moreira de Sena, de 49 anos, não imaginava os percalços que ela já passou na vida. Ela deixou o quilombo aos 11 anos, para ser empregada doméstica para uma família de Cavalcante. Depois, foi levada para Brasília, onde trabalhou até os 18 anos para ajudar a mãe no sustento da casa, na ajuda aos irmãos mais novos. Ela conta que quando estava na capital federal, o pai morreu no quilombo. Mas ela não foi avisada pelos patrões, que temiam que ela fosse embora.

“Com 11 anos eu sai daqui para trabalhar em Cavalcante. Eu morava na casa, ficava lá o tempo todo. Eu trabalhei em três casas. Apenas uma que era cruel, no estilo senhora. Mas o restante eram pessoas muito boas. A gente já estava acostumada com a dureza daqui que qualquer coisa estava bom demais. Eu era a mais velha de 9 irmãos, na época. Mas na minha casa tinha 18 pessoas. No trabalho eles compravam caderno para mim, me davam roupas usadas. Mas eu tinha eles como minha família. Meu primeiro pagamento em dinheiro foi aos 18 anos, em Brasília”, disse.

Ela não consegue tirar da memória a necessidade após os casos em que a lavoura da família era destruída na tentativa dos fazendeiros de expulsar os Kalungas de sua terra. “Os fazendeiros atrapalham demais. Às vezes destruiam a roça da família, soltavam animais para comer. E todo o alimento que a gente tinha vinha da roça. A gente só chorava, fazia apenas uma refeição no dia para economizar. Algumas pessoas tinham porco, mas era luxo. A gente tinha galinha. Ainda me lembro a primeira vez que comi um mamão inteiro”, conta.

Na capital federal, ela conseguiu terminar o ensino médio e ao voltar para a comunidade, se tornou professora da escola construída na região do quilombo. Hoje, Januária é proprietária de um restaurante na comunidade do Engenho II. No local, os turistas encontram comidas típicas da região, com alimentos totalmente naturais, sem agrotóxico e sem adubo, que crescem por meio de técnicas tradicionais do povo Kalunga para semear a agricultura.

Encontro de épocas

Engana-se quem acha que o território Kalunga foi ocupado com a chegada de escravizados fugidos de fazendas de localidades próximas. Na região de Teresina de Goiás está a Comunidade da Ema, onde existe um sítio arqueológico que conta parte da história do homem na América do Sul. Pinturas incrustadas nas rochas narram parte da rotina dos povos pré-históricos da região.

Por meio de hieróglifos, ou seja, de símbolos fixados nas pedras, as comunidades antigas, especialmente indígenas, deixaram sua comunicação para todas as gerações. Datações feitas por pesquisadores apontam que os símbolos foram feitos há 11 mil anos. Alguns acreditam que tratam-se de pontos cardeais (os desenhos batem com a rosa dos ventos). Outros falam que eram anotações sobre a melhor data do ano para iniciar a plantação e realizar a colheita.

Entre as teorias, também aparecem as que ligam os símbolos à chegada de naves de outros planetas, que foram retratadas na rocha pelos integrantes da comunidade que vivam na região na época em que foram feitas.

Da redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *